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Âncora ou asas?

24 maio

“Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem.” (Hebreus 11:1)

Antes de começar a escrever sobre o tema que desejo compartilhar com você, gostaria de fazer-lhe uma pergunta: Em sua opinião, o que é mais difícil na nossa caminhada, seja ela profissional, espiritual ou em outras áreas da vida?

Para mim, uma das coisas mais difíceis é ter paciência e perseverança (ou persistência). Em diversas situações, comecei até bem um determinado empreendimento, mas, com o decorrer do tempo, fui deixando-o de lado. Às vezes, com razões fortes e compreensíveis; outras, por ter perdido o ânimo para prosseguir ou o foco. Assim, evidentemente deixei de conquistar algumas coisas que poderiam ser muito importantes na minha vida e, por extensão, àqueles que convivem comigo.

Quando olho para a palavra de Deus, vejo Jesus contando uma parábola sobre a necessidade de se manter firme em relação a determinado propósito, mesmo que a princípio pareça que não conseguirá conquistar o anseia seu coração. Essa história está em Lucas 18:1 ao 8, e nos traz preciosíssimas lições, às quais devemos dar uma atenção especial.

No versículo primeiro, está escrito que a intenção do Mestre era mostrar aos discípulos que eles deviam orar sempre e nunca desanimar. Ora, se o Senhor decidiu transmitir-lhes esse ensinamento, por certo percebeu a existência dessa necessidade ou que poderia haver em situações futuras. Considerando que gente é gente em todos os tempos, culturas e lugares, entendo que essa palavra é extremamente atual e cabe como uma luva nos dias de isolamento social pelos quais estamos passando.

Sei que esses dias não estão sendo fáceis. Mesmo para aqueles que declaram ser pessoas de fé, é um período no qual suas crenças estão sendo postas à prova. Especialmente para aqueles que se tornaram vítimas do desemprego e estão vendo sua despensa se esvaziar, ou que tiveram redução de salário ou ainda que viveram na própria pele os efeitos do covid-19 (talvez viram alguém muito próximo sofrendo e até morrendo por causa da doença), a situação é ou parece desesperadora.

A partir do versículo 2, o Senhor começa a contar a história, que tem como uma das personagens centrais uma viúva, a qual leva diante do juiz sua causa, pedindo que ele faça justiça contra o adversário (ou inimigo) dela. Aqui, não temos o registro de qual era o problema que incomodava essa mulher. No entanto, havia algo que a importunava. Talvez, a intenção de Jesus ao não revelar qual era o problema foi deixar em aberto, a fim de que nós assumamos o lugar dela e coloquemos nossa causa ou necessidade.

Para ela, quem sabe, a queixa era contra alguma importunação relacionada à sua vida financeira. Aproveitando-se da fragilidade dela em razão da viuvez, queria cobrar uma dívida inexistente. Poderia ser um assédio sexual. Talvez ele é que devesse algum dinheiro e agora queria se aproveitar da morte do marido dela para não quitar o débito. Enfim, não se sabe o real motivo de ela ter procurado o juiz. Porém, o que importa aqui é que nós entendamos que também podemos levar até o Justo Juiz as nossas causas, sejam elas quais forem (Salmos 7:11; 119:137).

Nos versículos 2, 4 e 5, Jesus nos apresenta as características do juiz diante do qual a mulher levou a causa. Para resumir, vemos que ele era um homem de conduta pessoal e profissional reprovável. Mesmo assim, para não ser importunado ou molestado, ele resolveu fazer-lhe justiça.

Quem sabe, em razão de tudo o que temos visto em nosso país, ou melhor, diante de todas as injustiças que vemos frequentemente, temos deixado de acreditar que existe justiça. Quantas vezes pessoas totalmente corruptas não são punidas ou recebem punições que mais parecem prêmios dados pelos juízes… E, mesmo que de forma, inconsciente e involuntária, passamos a pensar e a agir como se Deus também fosse um juiz iníquo/injusto. Consequentemente, deixamos de crer e confiar que ele julgará nossas causas com retidão e amor.

Conhecedor que era da alma humana, a partir do versículo 6, o Mestre nos leva a uma reflexão: Se o juiz iníquo fez justiça para aquela mulher, embora não o tenha feito pelas razões corretas, o Justo Juiz não o fará por aqueles que levarem suas causas a ele? Acaso ele agirá com indiferença, fechando os olhos e os ouvidos para quem o busca com humildade e inteireza de coração?

Sem dúvida, ele se inclinará para ouvir o seu clamor. Como declara Davi: “Os olhos do Senhor estão sobre os justos e os seus ouvidos atentos ao seu clamor” – Salmo 34:17. O salmista também faz a seguinte declaração: “Justiça e juízo são a base/alicerce do teu trono; misericórdia e verdade vão adiante do teu rosto. (…) Porque o Senhor é a nossa defesa, e o Santo de Israel, o nosso Rei” – Salmo 89:14 e 18.

Não é por acaso que um dos nomes do Senhor é Yahvewh Tsidkenu, expressão hebraica que significa “o Senhor é a nossa justiça”. Veja: “Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a Davi um Renovo justo; sendo rei, reinará, e prosperará, e praticará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; e este será o nome com que o nomearão: O Senhor, Justiça Nossa” – Jeremias 23:5,6; 33:16. Observe que ele não apenas tem justiça, mas é a Justiça. É um dos seus principais atributos; portanto, está diretamente ao seu caráter. Logo, inegociável e eterno.

No versículo 7, o Senhor diz: “… ainda que tardio para com eles?”. Essa parte do texto é muito importante. Como grande parte das pessoas tem dificuldade de esperar com paciência e perseverança, elas querem (inclusive eu) que Deus responda rápido e do jeito que desejam. Contudo, o Senhor não se move pelo tempo cronológico (Khronos), ou seja, aquele marcado pelo relógio, mas pelo kairós (palavra grega que significa “momento certo ou oportuno”). Portanto, ele vai agir no momento em que considerar adequado, mesmo que isso pareça demora ou injustiça da parte dele.

Ainda ontem, fazendo o estudo bíblico familiar, comentei que hoje as pessoas têm dificuldade de esperar. Isso ocorre especialmente com os mais novos porque estão acostumados com a tecnologia avançada, com a qual acessam rapidamente as coisas que desejam e encontram uma resposta de forma muito rápida. Por esse motivo, geralmente são levadas a crer que tudo é assim.

Todavia, nem sempre as coisas foram dessa maneira. E, quando se trata de Deus, que é Onisciente (sabe todas as coisas), as respostas são no tempo e do jeito que ele entende ser o melhor. No entanto, precisamos entender que ele nunca nos deixa sem resposta. Apenas age de acordo com a sua soberania e sabedoria, por conhecer não apenas o passado ou o presente como nós, mas também o futuro.

Desse modo, precisamos manter viva nossa fé, emunah – no hebraico, a qual está ligada à confiança e à esperança. Segundo o escritor da Epístola aos Hebreus, “a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem.” –  Hebreus 11:1. Veja que ele usa duas palavras: certeza e convicção. Ele também faz mais duas colocações: “…coisas que se esperam…” e “…fatos que não se veem…”. Algo muito difícil para nós. No entanto, o cristão sabe que Deus já fez muitos milagres em sua vida e na vida de seu povo em geral. Assim, possui motivos bastantes para depositar sua confiança e esperança em Deus, o Justo Juiz, ainda que as circunstâncias que o envolvam pareçam ser irreversíveis e os problemas insolúveis.

Para finalizar este artigo, quero dizer-lhe que outro dia eu e minha esposa assistimos a um filme baseado em uma história real chamado “Andar Montar Rodeio – A Virada de Amberley”. Nele, a personagem central sofre um acidente e se torna paraplégica. Mesmo tendo muita força e dedicação, há momentos nos quais ela quer desistir de lutar, mas sua mãe lhe diz as seguintes frases: “Essa cadeira {de rodas} pode ser sua âncora ou suas asas. Você decide”.

Essa fala mudou completamente a visão de Amberley. A partir daí ela passou a ver possibilidades onde só havia impossibilidades. Porém, não ficou parada esperando que as coisas caíssem do céu no seu colo, nem tampouco desistiu das muitas tentativas de conseguir o que queria porque tinha muitas dificuldades.

No final do processo, sua cadeira se transformou em asas que a levaram a lugares sonhados, os quais, por um período de tempo, pareceram inatingíveis. Ela insistiu, lutou, conseguiu ultrapassar obstáculos e venceu. A cadeira não foi uma âncora que a fez ficar presa, mas lhe deu asas! Parafraseando a texto bíblico em questão, ela insistiu em resolver a situação como a mulher diante do juiz.

Comigo e com você acontece o mesmo. Ou pode acontecer. As adversidades podem se tornar uma âncora para nós, ou seja, algo que nos deixa estacionados ou presos ou se tornarem asas que nos dão a possibilidade de voar. Ficar parado é mais fácil e, aparentemente, cômodo… mas frustrante. Voar é mais difícil e, até certo ponto, perigoso… mas libertador, necessário e recompensador.

Hoje, podemos aproveitar o tempo de reclusão para ficarmos ancorados, sem fazer nada (talvez só murmurando) ou exercitar nossas asas para voar. Afinal, Deus tem poder para transformar o mal em bem, como disse José a seus irmãos, lá no Egito – Gênesis 50:20.

Que tal exercitar suas asas fazendo um curso em sua área de atuação profissional ou mesmo em outra que você aprecia?  Também pode ler um bom livro, especialmente a Bíblia, tentando entender melhor o propósito de Deus para sua vida e família. Aproveite ainda para tirar um tempo para orar ao Senhor, recarregando suas baterias e evitando se tornar vítima da ansiedade, da depressão ou do pânico. Opções não faltam e prontidão do Pai para ouvi-lo também não: “Então vocês clamarão a mim, virão orar a mim, e eu os ouvirei. Vocês me procurarão e me acharão quando me procurarem de todo o coração. Eu me deixarei ser encontrado por vocês, declara o Senhor” – Jeremias 29:12-14.

 
 

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