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Graça: cerca que protege a vida

02 jan

“Manifestou-se, com efeito, a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens.” (Tito 2:11- Versão Católica)      

     Um dos assuntos mais importantes das Escrituras Sagradas, se assim posso dizer, é a graça do Senhor para conosco. Portanto, entender o que é a graça e suas implicações em nossa vida precisa e deve ser um dos objetivos de todo aquele que deseja compreender o plano de salvação, elaborado por Deus.

     A princípio, precisamos lembrar que, quando criou o ser humano, Deus estabeleceu um limite, o qual Adão devia respeitar. Veja: “E o Senhor Deus ordenou ao homem: — De toda árvore do jardim você pode comer livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal você não deve comer; porque, no dia em que dela comer, você certamente morrerá” – Gênesis 2:16,17 – NAA).  

     Ao estabelecer esse limite, o Senhor não estava agindo como um “estraga prazer”. Ao contrário, desejava ensinar o princípio da obediência ao seu Criador. Também queria mostrar que acima deles havia alguém no comando, a quem precisavam respeitar. Ademais, o Pai pretendia protegê-los do sentimento de autossuficiência, o qual sempre leva as pessoas a suporem que conseguem viver e ser felizes por sua própria capacidade. Talvez, em nossos dias, isso fique ainda mais evidente do que antes.

    Como bem sabemos, Eva não resistiu aos encantos da árvore e à sedução do maligno (ali representado pela serpente), e comeu. Seu marido também fez o mesmo: “Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto e comeu; e deu também ao marido, e ele comeu” – Gênesis 3:6.

     Antes de prosseguir, quero deixar bem claro que não estou dizendo que a Mulher é que pisou na bola. Pelo contrário. O Senhor tinha dado a ordem a Adão, e foi a ele que se dirigiu primeiro e questionou sua atitude pecaminosa. Mas, como os dois cederam à tentação, ambos sofreram as consequências do pecado, que acabara de entrar no mundo por causa da desobediência a uma ordem expressa do Senhor.

     Quando caíram em si, e viram que haviam desobedecido ao Pai, tentaram dar um jeitinho, fazendo aventais de folhas de figueiras, para esconderem sua nudez – Gênesis 3:7. No entanto, era o ser humano tentando resolver as coisas do seu próprio jeito, o que foi impossível, como o é também hoje e sempre o será.

    Ao ouvirem a voz de Deus no final do dia, tentaram se esconder, como se isso fosse possível – Gênesis 3:8 ao 24. Já no versículo 15, vemos que o Senhor deu uma sentença e fez uma promessa: da semente (descendência) da mulher nasceria alguém que pisaria a cabeça da serpente, ou seja, do maligno. Obviamente, era uma referência à vinda do Messias, para resgatar o ser humano das garras do adversário da nossa alma e do pecado.

     Chegando ao versículo 21, lemos: “O Senhor Deus fez roupas de peles, com as quais vestiu Adão e sua mulher” – Gênesis 3:21. Fazendo isso, o Senhor estava dizendo: “Não é do jeito de vocês que as consequências do pecado vão ser resolvidas, mas do meu jeito”. Aliás, o jeito de Deus é sempre o melhor em tudo, conforme falo com minha família, quando é pertinente ou necessário.

    Aqui, preciso registrar que para fazer as túnicas de pele certamente um animal ou dois tiveram que morrer. Provavelmente, foram ovelhas ou cordeiros que perderam sua vida para que a nudez humana fosse coberta. Isso já apontava para Cristo, o qual é comparado com um cordeiro e com uma ovelha em Isaías 53;7. E, em João 1:29, Jesus é chamado de “O cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”.

    Em Gênesis 3:22 ao 24, leremos que as consequências da desobediência e do pecado foram a expulsão do jardim do Éden, cujo significado é estepe, planície, prazer ou delícia. Tal fato indica a seriedade do erro. Em Romanos 3:23, Paulo diz: “… pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus”. Ou melhor: o pecado nos expulsou da presença de Deus.

    Se a história do ser humano terminasse aqui, seria muito triste. Trágica. Porém, graças a Deus, não termina assim. Antes, o plano de resgate, elaborado pelo Senhor, começa a ganhar corpo. Isso porque ninguém consegue, através de seus próprios esforços, se religar a Deus.

    Quando lemos Efésios 2:1 ao 9, isso fica bem claro. Observe: “Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados, nos quais costumavam viver, quando seguiam a presente ordem deste mundo e o príncipe do poder do ar, o espírito que agora está atuando nos que vivem na desobediência. Anteriormente, todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos por natureza merecedores da ira. Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos. Deus nos ressuscitou com Cristo e com ele nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus, para mostrar, nas eras que hão de vir, a incomparável riqueza de sua graça, demonstrada em sua bondade para conosco em Cristo Jesus. Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie” – NVI.

    Segundo você viu no texto acima, o pecado gerou morte. Física e espiritual. Quando se fala de morte espiritual, refere-se ao afastamento ou à separação definitiva de Deus. Assim, para reverter esse terrível quadro, foi preciso isto: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é condenado; mas o que não crê já está condenado, porque não crê no nome do unigênito Filho de Deus. A condenação é esta: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Pois todo aquele que pratica o mal detesta a luz e não se aproxima da luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Quem pratica a verdade se aproxima da luz, para que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” – João 3:16-21.

     Como você viu, todos nós estávamos espiritualmente mortos. Por isso, Deus, em seu infinito amor para conosco, enviou Jesus Cristo para anunciar o evangelho, morrer na cruz e ressuscitar ao terceiro dia, para que nos trouxesse de volta à vida, fôssemos reconciliados e religados ao Pai e pudéssemos ter a certeza de que um dia iremos morar definitivamente com ele.

    Mas, como você leu em Efésios 2:8 e 9, a salvação é pela graça, por meio da fé – Romanos 1:16 e 17. Não vem das obras para que ninguém se glorie, isto é, não é fruto de esforços que resultam em merecimento pessoal. Em outras palavras: ninguém pode salvar-se a si mesmo. Afinal, no Novo Testamento, a palavra grega traduzida como graça é “charis”, a qual tem o sentido de favor a quem não merece. Também pode ser entendida como misericórdia, bondade ou benevolência de Deus para com o homem.

     Desse modo, fica mais fácil entender o que Jesus disse em João 14:6: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”. Ora, se quisermos chegar a São Paulo, não podemos pegar a rodovia rumo ao interior, e vice-versa. Logo, caso desejemos chegar a Deus, Jesus se apresenta como único caminho, que aqui quer dizer meio, forma ou jeito. Não nos adianta procurarmos alternativas, pois simplesmente não existem, segundo dizem as Escrituras Sagradas.

    Os textos a seguir também nos ajudam a perceber claramente que em se tratando de mediador ou intermediário entre Deus e o homem só existe Jesus Cristo. Veja: “Não há salvação em nenhum outro, pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” – Atos 4:12 – e 1 Timóteo 2:5,6: “Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e a humanidade, Cristo Jesus, homem, que deu a si mesmo em resgate por todos, testemunho que se deve dar em tempos oportunos” – NVI.

    Afinal, o Mestre foi o único que morreu na cruz em nosso lugar e para nossa justificação: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio do nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual obtivemos também acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e nos gloriamos na esperança da glória de Deus” – Romanos 5:1,2 – NVI.

     Quando voltamos ao Primeiro Testamento, também encontramos a palavra graça em muitas passagens. Normalmente, é empregada חסד, cuja transliteração é chesed, significando bondade, favor, benevolência, benignidade, misericórdia, amor e caridade. Isso demonstra claramente como Deus sempre manifestou sua graça ao seu povo. No salmo 136, por exemplo, há 26 vezes essa palavra.

     Além do vocábulo acima, existe outro bastante usado nas Escrituras: Chên (חֵן). Ele é formado pelas letras hebraicas chêt, cujos significados são cerca, guardar e proteger e num, a qual representa vida e vigor. Sendo assim, podemos entender que graça é aquilo que protege a vida ou ainda cerca que protege a vida. Portanto, no sentido bíblico, a graça de Deus é mais do que um favor a quem não merece (eu, você, todos nós). Mais do que amor ou generosidade incondicionais. É a cerca que protege ou guarda a nossa vida.

    Como vimos anteriormente em Romanos 3:23, todos nós pecamos, isto é, erramos o alvo, transgredimos ou desobedecemos ao Pai. Por essa razão, fomos destituídos da glória de Deus. Já em Romanos 6:23, lemos o seguinte: “… porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor”. Ainda em Romanos 3:24, encontramos estas palavras motivadoras: “…sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus”.

     Como é maravilhoso ler essas palavras! Sabemos que nossa natureza é essencialmente má. Basta olharmos ao nosso redor que veremos que até as crianças, embora inconscientemente, fazem coisas más ou erradas. Na medida em que crescem, também podemos observar tais ocorrências. E, se olharmos para nós mesmos, adultos, verificaremos que, por mais que tentemos ser bons, muitas vezes agimos mal e até somos estúpidos ou vis em algumas situações.

     Desse modo, biblicamente falando não existe nenhuma possibilidade de sermos merecedores do perdão de Deus e da salvação eterna. MAS, quando aceitamos a Cristo como nosso Senhor e Salvador e o convidamos para fazer morada permanente em nosso coração, somos justificados gratuitamente, por meio da redenção conquistada por Jesus lá na cruz do Calvário.

    Em João 1:11-13, lemos estas maravilhosas palavras: “{Jesus} Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram por descendência natural, nem pela vontade da carne nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus”.

    Quem não o recebeu? Grande parte dos judeus, especialmente aqueles que eram apenas religiosos e se consideravam detentores absolutos da verdade como, por exemplo, os líderes judaicos. Por outro lado, está escrito que aos que receberam Cristo e creram em seu nome, ou seja, que ele era o Ungido do Senhor ou o Messias passaram a ser, espiritualmente falando, filhos de Deus. Obviamente, isso também quer dizer que passaram a ter direito à salvação eterna, como está escrito em 1 João 2:25: “E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna”.

     Há, ainda, algo que considero importante deixar registrado neste artigo: a graça de Deus se manifesta em três tempos distintos, com seus aspectos característicos, produzindo:

  • 1º: Santificação inicial (a porta de entrada): A graça removendo a culpa. Isso acontece quando reconhecemos que somos pecadores e que precisamos do favor de Deus, de seu amor e generosidade incondicionais, uma vez que jamais conseguiremos ser justos o suficiente diante de Deus por mérito ou esforços próprios – Efésios 2:1-9.
  • 2º. Santificação progressiva (o caminho ou a caminhada): Como o sentido da palavra já indica, é algo que avança; que evolui, segue em frente; que se desenvolve gradualmente, aos poucos ou por etapas. Isso quer dizer que é o período da nossa caminhada terrena, no qual o Espírito Santo vai nos aperfeiçoando: “Amados, visto que temos essas promessas, purifiquemo-nos de tudo o que contamina o corpo e o espírito, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus” –  2 Coríntios 7:1. 
  • 3º Santificação final (o Alvo a ser alcançado): É a manifestação da plenitude do processo de santificação, ou seja, de consagração a Deus ou de afastamento daquilo que é condenável e condenado pelo Pai. Mas é sobretudo o ponto máximo da vida com Cristo, quando haverá a redenção final. 

A palavra redenção refere-se diretamente ao ato de soltar ou libertar os escravos, através do pagamento do valor estipulado pelo dono. Em se tratando do sentido bíblico ou teológico, trata da libertação e salvação de Deus para a humanidade, por meio de seu filho Jesus Cristo.

A relação existente entre a redenção de escravos (física) e a nossa (espiritual) é que, antes de o Espírito Santo iluminar os olhos do nosso entendimento no que tange às coisas espirituais, éramos escravos do maligno e do pecado, o qual se manifesta de diversas formas, especialmente no desejo de vivermos e de fazermos as coisas do nosso jeito, não da maneira como o Senhor estabeleceu e requer de nós.

Por isso, ao escrever aos irmãos da cidade de Éfeso, o apóstolo Paulo declara: “Oro também para que os olhos do coração de vocês sejam iluminados, a fim de que vocês conheçam a esperança para a qual ele os chamou, as riquezas da gloriosa herança dele nos santos e a incomparável grandeza do seu poder para conosco, os que cremos, conforme a atuação da sua poderosa força”Efésios 1:18,19.  

     Assim, a redenção final se dará quando Jesus vier buscar Sua Igreja, a qual é composta por todos aqueles que entenderam a mensagem do Evangelho, que o convidaram para vir morar em seu coração e ser seu Senhor e Salvador. Nesse dia, Cristo dirá a tais pessoas: “Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo” – Mateus 25:34. E eu quero estar entre estes!

     Para finalizar, gostaria de dizer que a graça de Deus, manifesta através do Senhor Jesus Cristo, é um especialíssimo presente do Pai Celestial para cada um de nós. Também quero lembrá-lo de que ela é a cerca que protege nossa vida de tudo aquilo que nos afasta do Senhor e nos causa danos terríveis.

     Ainda preciso falar que cerca parece ser algo negativo, pois traz a imagem de algo que nos limita, tira a liberdade ou impede de seguirmos nosso caminho. MAS, no sentido bíblico, tem o objetivo de nos livrar dos “predadores” deste mundo tenebroso e até de nós mesmos, visto que nosso orgulho e sentimento de autossuficiência muitas vezes nos fazem cair nas armadilhas espalhadas ao longo do caminho onde cumprimos nossa jornada terrena. Então, a quem almeja estar dentro dos limites estabelecidos por ela, essa “cerca” só traz benefícios e paz de espírito.

    Agora, só me resta fazer-lhe uma pergunta: Quando você recebe um presente de uma pessoa especial, o que você faz com ele? Quase ouço você dizer que cuida dele com muito carinho e lhe dá o devido valor. E quanto ao presente que Deus lhe deu, mencionado no texto de abertura deste artigo?

     “Manifestou-se, com efeito, a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens. Veio para nos ensinar a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver neste mundo com toda sobriedade, justiça e piedade, na expectativa da nossa esperança feliz, a aparição gloriosa de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, que se entregou por nós, a fim de nos resgatar de toda a iniquidade, nos purificar e nos constituir seu povo de predileção/especial, zeloso na prática do bem” – Tito 2:12-14” – Versão Católica).

    Sugestão de música: Graça maravilhosa (Voz da verdade)

 
 

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