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Palavras com que se escreve uma nova história

25 set

     “Desvenda os meus olhos, para que eu veja as maravilhas da tua lei.”               (Salmos 119:18 – ARC)

     Se eu lhe perguntasse quantas vezes leu ou ouviu palestras sobre a Parábola do filho pródigo, certamente você teria dificuldade para dizer a quantidade. No entanto, penso que foram muitas. Afinal, mesmo quem tem pouca familiaridade com as Escrituras Sagradas, conhece alguma coisa a respeito dessa narrativa.

     Desse modo, a princípio parece desnecessário escrever mais um artigo sobre essa história contada por Jesus. Porém, a Palavra de Deus é uma fonte inesgotável de água para o sedento e sempre existe algo para aprender com ela ou, pelo menos, relembrar. E entendo ser justamente por esse motivo que mais uma vez fui levado pelo Espírito Santo a ministrar sobre ela e, agora, a escrever a seu respeito.

     Quando olhamos para o início do capítulo 15 de Lucas, encontramos o seguinte registro: “E chegavam-se a ele todos os publicanos e pecadores para o ouvir. E os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles” – 15:1 e 2. Por causa dos comentários inconvenientes desses homens, o Senhor contou três parábolas: A ovelha perdida, A dracma perdida e O filho pródigo.

     A partir do versículo 11, o Mestre começa a contar essa história, dizendo: “Um certo homem tinha dois filhos. E o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte da fazenda que me pertence. E ele repartiu por eles a fazenda” – Lucas 15:11,12.

     Pedir a herança antes da morte do pai era um grande desrespeito. Soava como se desejasse que ele morresse ou que já estivesse morto. Contudo, esse não é o único significado problemático por trás do pedido do jovem. Pedir sua parte antecipadamente era consequência da ingratidão que habitava sua alma. E o efeito disso não podia ser outro: ele não conseguia ver o que desfrutava estando na casa do pai: amor, proteção, segurança, suprimento para suas necessidades básicas e, sobretudo, a presença de seu genitor.

     A ingratidão sempre culmina com a insatisfação. Por isso, todas as coisas materiais ou imateriais recebidas ou não eram vistas ou não eram valorizadas. O simples fato de estar ali o sufocava e, talvez, o revoltava. Quem sabe, ele se sentia reprimido. Impossibilitado de fazer o que viesse à sua cabeça. De satisfazer todos os seus desejos carnais. Assim, para esse jovem, a casa do pai deixou de ser um lar e passou a ser uma prisão.

     O texto continua: “E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua e ali desperdiçou a sua fazenda, vivendo dissolutamente” – Lucas 15:13

     Uma coisa relevante é que aquele filho não saiu de casa logo após ter recebido a parte da herança que lhe cabia por direito, mas alguns dias depois.

     Essa informação é muito interessante e importante. Indica que ele teve tempo para refletir sobre o que fizera. Para se arrepender e se corrigir diante do pai. Talvez, ele tenha vivido um grande conflito interior. Quem sabe, a consciência o acusou e mostrou a necessidade de que pedisse perdão ao pai. Mas não o fez. Não deu ouvidos a ela e convenceu a si mesmo de que ir para longe do pai era o melhor a fazer.

     E se foi. Resoluto. Inconsequente. Com mil planos em sua cabeça, vislumbrando apenas os supostos benefícios resultantes da decisão tomada. Sem dúvida, se lhe passava na mente algum pensamento negativo, logo ele o afugentava bravamente. Afinal, ele era jovem. Dono da própria vida. Sabia o que estava fazendo. A seus próprios olhos, onipotente.

     Esse cenário é diferente do que vemos hoje? Penso que não. Quantas pessoas conhecidas abandonam a Casa do Pai por se sentirem desse jeito! Infelizmente, muitos de nós, em algum momento, desejamos fazer isso também. E, se não a deixamos fisicamente, o fazemos espiritualmente.

     Como diz a Bíblia em Atos 7:39, muitos hebreus que deixaram o Egito sob a liderança de Moisés, o libertador enviado pelo Senhor, voltaram para lá em seu coração (Atos 7:39). Da mesma maneira, voltamos ou nos voltamos para o mundo, deixando-nos enganar pela suposta liberdade que há fora da Casa do Pai e, como o jovem da parábola, tornamo-nos pródigos também.

     Ainda no versículo 13, somos informados de que esse rapaz foi para uma terra longínqua. Isso nos leva a entender que ele almejava romper completamente os laços com seu pai e com seu irmão. Não queria correr o risco de sofrer interferências indesejáveis ou indesejadas.

     No início, parece que tudo transcorreu como ele sonhara. Geralmente quem possui dinheiro consegue fazer muitos “amigos”. Ter os namorados ou as namoradas que desejar. Sexo à vontade. E muito mais… Mas, sempre que acaba o dinheiro, tais pessoas desaparecem, como num passe de mágica, pois a riqueza pode “comprar” momentos de atenção e prazer e supostas amizades. Todavia, jamais comprará amor verdadeiro ou amigos de fato.

     Em minha cidade natal, houve um jovem que ganhou milhões na loteria. Comprou uma fazenda, de porteira fechada – com todo o maquinário, toda a estrutura e o todo o gado que nela havia. Carro novo. Conquistou mulheres. Vivia cercado de “amigos”. Sentado num bar, pagava comida e bebida para todos. Entretanto, quando o dinheiro acabou, os supostos amigos e as moças que o bajulavam passaram a ignorá-lo. O choque de se ver sem todas as regalias compradas pelo dinheiro o deixou doente e, por fim, foi parar num hospital psiquiátrico. Quando recebeu alta, passou a ser “invisível”. Aqueles que antes se diziam seus amigos, agora fugiam dele, fingindo não o conhecer.     

     Por certo, ocorreu algo semelhante com a personagem dessa narrativa. No versículo 13, lemos que o moço desperdiçou todos os seus bens, vivendo irresponsavelmente. Para piorar, veio uma grande fome sobre aquela terra e ele começou a passar necessidade (v 14). O tempo de glória acabara.

     Com fome e sem o dinheiro da herança, o jovem busca trabalho para se sustentar e, desesperado, aceita um cargo que nenhum judeu jamais pensaria ocupar: cuidador de porcos.

      Segundo a lei do Antigo Testamento, porcos eram animais impuros, de maneira que aquele que tivesse contato com esses animais também se tornaria impuro. Portanto, a aceitação desse trabalho, demonstra a total degradação a que chegara esse rapaz.

      Por acaso, não acontece algo semelhante com muitos dos que abandonam a Casa do Pai? Ao chegarem espiritual e financeiramente ao “fundo do poço”, fazem coisas que antes eram inimagináveis, por serem impuras, imorais, degradantes ou humilhantes aos olhos de Deus. 

     Apesar de ter conseguido um trabalho, a história relata que o jovem continuava a passar fome, chegando a desejar a comida que era dada aos porcos, mas nem isso lhe davam – Lucas 15:15 e 16. Em outras palavras: naquele momento, ele estava sendo tratado como um ser inferior àqueles animais.

     Quando esse rapaz passa a ser tratado como inferior aos porcos, podemos dizer que, para a cultura da época, ele não tinha mais valor nenhum. Mas, surpreendentemente, este não foi o seu fim. Que bom!

     O início da grande reviravolta começa a acontecer quando entra em cena outra palavra: reconhecimento. No versículo 17, lemos: “E, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome!”.

     Para entendermos melhor, preciso dizer que, quando escreve “caindo em si”, o autor quer dizer que o jovem reconheceu a situação em que estava e como havia errado com seu Pai. Num sentido comum ou corriqueiro, reconhecer significa tomar conhecimento, trazer à mente de novo, certificar-se. Mas vai além disso.Na prática, quer dizer: ter um novo conhecimento ou olhar com outros olhos para o mesmo objeto ou situação. E, ao fazer isso, a pessoa consegue enxergar aquilo que até então não lhe era visível.

     Agora, com seus olhos abertos, ele consegue fazer um julgamento correto da situação na qual se encontrava e uma comparação justa entre sua vida atual e a que tivera na Casa do Pai. Assim, o reconhecimento torna-se o pontapé inicial para a transformação da história desse rapaz.

     O arrependimento autêntico é o primeiro efeito causado pelo reconhecimento. O segundo, a humildade: “Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus trabalhadores/jornaleiros” – Lucas 15:18,19.

     Arrependimento verdadeiro sempre é acompanhado pela humildade. Sem ela, até pode haver remorso, vergonha de uma atitude tomada, mas nunca verdadeiro arrependimento. Sem a humildade, é possível que o jovem decidisse ir para uma terra ainda mais distante, para evitar que seu pai, irmão e conhecidos soubessem de sua situação degradante. Entretanto, sendo humilde, ele decide não fugir, mas voltar à Casa do Pai.  

     Seu arrependimento é tão verdadeiro e profundo que entende não mais merecer ser tratado como filho. Para o jovem, era mais prudente pedir que seu pai o aceitasse como um trabalhador diarista, sem compromisso formal, recebendo por dia trabalhado. De fato, ele havia compreendido a gravidade do que fizera. Mas o pai tinha outros planos para seu filho. Como Deus também tem para todos nós, pródigos, que decidimos voltar para Casa.

     No versículo 20, vemos que o jovem realmente volta para casa. Penso que houve um grande conflito interior, que aconteceu uma batalha entre o orgulho e a humildade. Suponho que o jovem temeu enfrentar o pai e que, muito provavelmente, pensou em desistir. Mas prosseguiu. Felizmente!

     Ainda nesse versículo, vemos que o pai avistou o filho ainda longe, correu até ele, e o beijou. Algo parece errado. Não era o filho quem devia correr em direção ao pai? Aliás, esse jovem deveria ter se prostrado aos pés do pai em sinal de arrependimento e humildade. Seria o mais lógico a fazer.

     Há muitas lições importantes nessa parte da história, para as quais devemos atentar. Uma delas é que quando decidimos voltar para a Casa do Pai, ele está à espera e ansioso por esse momento. Observe que o pai o avistou ao longe. Ora, isso dá a entender que esse homem estava olhando para a estrada a esperar o retorno do filho. Como o Pai Celestial também sempre aguarda, ansioso, o regresso de filhos pródigos que compreenderam que a Casa dele é o melhor lugar onde um filho pode estar.

     Outra lição é: o pai sabia que, ao voltar para casa, o filho demonstrava estar arrependido, tendo reconhecido os próprios erros. Por isso, o pai o recebe de braços abertos. Assim também Deus, quando nos vê no caminho de volta para casa, recebe-nos calorosamente, sem apontar para nós um dedo de acusação e/ou nos repreender pelas atitudes vergonhosas.

     Para aquele pai, assim como para nosso Pai Celestial, o arrependimento sincero era mais importante do que os erros cometidos. Como sinal disso, o pai pede a seus empregados que tragam para o filho: roupas novas (para cobrir uma possível nudez), restaurando sua dignidade; um anel (para restaurar seu status de filho e herdeiro) e sandálias, para que pudesse caminhar seguro, sem se ferir.

     Em seguida, aquele pai ordena que tragam o bezerro cevado, reservado para eventos especiais, para fazerem um churrasco e comemorar o retorno do filho – Lucas 15:23. Aquela era uma ocasião especialíssima. Logo, merecia uma festa. Isso lembra o que Jesus disse: “Digo-vos que, assim, haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento” – Lucas 15:7.  

      A seguir, o pai justifica o motivo da celebração: “… porque este meu filho estava morto e reviveu; tinha-se perdido e foi achado. E começaram a alegrar-se” – Lucas 15:23. Que maravilha! Agora aquele filho estava reintegrado à família! Ele certamente enfrentaria problemas em consequência de seus atos (como a rejeição do irmão). No entanto, ele venceria porque novamente estava na casa e na presença de seu pai e podia contar com ele para ajudá-lo.

     Para concluir, bastam apenas algumas considerações:

  • Ainda que sejamos ou ajamos como pródigos, o Pai Celestial sempre está de braços abertos para receber aqueles que reconhecem seus erros, arrependem-se sinceramente e retornam para Casa.
  • Ainda que o filho não entendesse o que significa graça (favor a quem não merece) e perdão, foi justamente o que o Pai, generosamente, lhe ofereceu. Você pode não entender profundamente também. Não importa. Mesmo sem compreender, é isso que o Senhor tem para lhe oferecer quando decidir voltar para a Casa Dele.
  • Você é mais importante do que seus erros. Por isso, Deus enviou Jesus para morrer em seu lugar: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” – João 3:16
  • Os erros sempre trazem consequências negativas, como aconteceu com Davi. Mas, estando na Casa do Pai, você receberá a ajuda necessária para vencer (Romanos 8:26).
  • Não existe dúvida de que depois do perdão e aceitação recebidos na Casa do Pai, aquele filho tornou-se grato por tudo.
  • Estando na casa do Pai, mesmo que não tenha tudo o que deseja ou pensa que merece, você tem o bem maior – a presença e o amor do Pai.
  • Não seja como muitos, que querem a parte da herança (as bênçãos), mas não querem o Pai e a presença dele.

     Compreendemos, dessa maneira, que não existe nada melhor para alguém do que estar e viver na Casa de Deus. Ainda que as propostas do mundo sejam tentadoras, certamente são apenas passageiras e ilusórias. Assim, a alegria e o prazer que geram não valem a pena. Milhões de pessoas já se iludiram com elas e, depois de muito sofrerem, compreenderam que estavam erradas e voltaram.

     Portanto, se esse for o seu caso, volte também. E, se você não saiu fisicamente, mas seu coração já está no mundo, ainda é tempo de refletir e de tomar a decisão de permanecer na Casa do Pai. Por fim, lembre-se de que seu reconhecimento, arrependimento, humildade gerarão graça, perdão, aceitação e acolhimento da parte do Pai Celestial. E é com elas que se escreve uma nova história de vida, de paz, vitória e felicidade verdadeira.

Para ouvir: Filho Pródigo – Voz da Verdade

 

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